Prazeres da literatura na vida adulta

Fui uma adolescente que lia muito, muita literatura, muitos romances, li quilos e mais quilos de livros, coisas boas e ruins. Quando entrei na universidade o ritmo caiu bastante, passei a ler outras coisas também, mas aqui e ali continuei com alguns livros, tentando escolher melhor. A maternidade me levou para outras leituras, algumas releituras, e no meio disso tudo algumas vezes eu me canso do que estou lendo e desejo algum ar mais fresco. Compartilhei este desejo com algumas outras amigas que são mães também, falei que queria ler alguma coisa de literatura com um bom exemplo de maternidade, e bingo, outras amigas tinham anseios parecidos, e uma indicou Anne de Green Gables, o livro que deu origem aquele seriado do Netflix (mas spoiler, o livro é muito melhor).

Me lancei a leitura (obrigada kindle pelo acesso rápido e barato a livros, e livros em português). E fui surpreendida capítulo após capítulo com uma leitura deliciosa, impossível não me identificar com a Marilla em muitos pensamento e diálogos, e uma incrível dose de auto-conhecimento e aprendizados. Foi muito legal ver ela crescendo na maternidade, no seu entendimento de quem é a Anne, do que ela realmente precisava, e como o Matthew tem um papel relevante.

Além disso, fiquei pensando como que graças as novas experiências na vida a leitura deste livro pode ser muito rica, não sei se teria gostado dele o mesmo tanto se tivesse lido em outra estação da vida, mas neste momento foi uma grata surpresa de como que a literatura tem espaço nesta estação da vida também.

Vou deixar aqui um trecho do final do livro, um dialogo maravilhoso que mostra o crescimento e amadurecimento da Anne e da Marilla, tanto individualmente quanto na relação de ambas.

(Mais dicas de livros, estou aceitando. Quero ler os outros 5 da Anne com certeza!)

— Marilla – disse Anne, em tom de confidência – quero lhe contar uma coisa e perguntar o que você acha sobre isso. É algo que tem me preocupado terrivelmente, especialmente nos domingos à tarde, que é o momento em que penso sobre tais assuntos. Eu quero muito ser uma boa garota; e quando estou com você, ou com Mrs. Allan, ou com Miss Stacy, desejo isso mais do que nunca, e quero fazer somente o que agrada a vocês e o que aprovam. Mas na maioria das vezes quando estou com Mrs. Lynde, eu me sinto desesperadamente má, e é como se eu quisesse fazer exatamente o que ela diz que não devo. Sinto-me irresistivelmente tentada. Agora, por que você acha que eu me sinto assim? Acha que é porque eu sou muito má, e que não posso me regenerar?

Por um instante, Marilla pareceu estar em dúvida. Então começou a rir.

— Se você é, acho que também sou, Anne, pois Rachel frequentemente me causa exatamente o mesmo efeito. Às vezes acho que ela teria mais influência para o bem, usando suas palavras, se não ficasse atazanando os outros para serem corretos. Deveria haver um mandamento especial contra atazanar. Mas eu não deveria falar assim. Rachel é uma boa mulher cristã e faz tudo por bem. Não há em Avonlea um coração mais nobre, e nunca se esquiva de sua parte no trabalho.

— Estou contente em saber que você sente o mesmo – respondeu Anne, decidida –, é tão encorajador! Não vou me preocupar tanto com isso, agora. Mas ouso dizer que terei outras coisas para me preocupar. A todo o momento chegam novas coisas – coisas que me deixam perplexa, sabe. Você responde uma pergunta, e imediatamente surge outra. Há tantas coisas para serem ponderadas e decididas quando se está crescendo. Fico ocupada o tempo todo, ponderando e decidindo o que é certo. Crescer é uma coisa muito séria, não é, Marilla? Mas quando tenho amigos tão bons quanto você e Matthew, e Mrs. Allan e Miss Stacy, devo crescer corretamente, e estou certa de que será minha culpa se tudo der errado. Sinto que é uma enorme responsabilidade, porque eu tenho uma única chance. Se eu não crescer bem, não poderei simplesmente voltar e começar tudo de novo. Eu cresci seis centímetros neste verão, Marilla. Mr. Gillis mediu-me na festa de Ruby. Estou feliz que você tenha feito meus novos vestidos um pouco mais compridos. Aquele verde escuro é tão lindo, e foi muito delicado de sua parte colocar babados. Obviamente sei que não era necessário, mas os babados estão tão na moda neste outono, e Josie Pye tem babados em todos os seus vestidos. Sei que poderei estudar melhor por causa do meu. Terei em minha mente uma sensação confortável por causa daquele babado.

— É algo válido sentir isso – admitiu Marilla”

“Anne de Green Gables” – Lucy Maud Montgomery

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