23:00

Dessa vez ninguém anunciou a hora, nós só ouvimos um chorinho e então veio um corpinho quente e úmido para o meu colo. Felipe estava segurando a minha mão e chorou dizendo que dessa vez ele tinha errado, e a Joana estava certa, era uma menina.

Uma menina, nossa Lúcia!

“Ela nasceu onde morar era…”

Nasceu em casa a Lúcia. Foi tão bom!

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PRÉ-PARTO

Mas porque em casa? Veja bem, esta história começa quando eu estava grávida da Joana, e ao pensar no parto minha vontade era estar em casa sozinha com o Felipe, eu não tinha vontade de dividir este momento com mais ninguém, mas achava este meu sentimento muito primitivo/animal. Ao questionarmos a médica do pré natal da Joana sobre parto em caso, eu entendi que era uma coisa ilegal no Brasil, e então saiu de cogitação para nós. Seguimos o pré natal normalmente e por fim chegando a 42 semanas de gestação internamos para uma indução do parto. Tudo seguiu protocolos claros, fui tratada com respeito, porem o desfecho quase dramático me deixou várias questões, várias delas intelectuais e emocionais.

Quando uma amiga engravidou, fui emprestar livros para ela sobre maternidade, bebês e etc, e percebi que eu havia lido apenas um livro sobre parto, o qual eu não tinha gostado muito. Ao engravidar pela segunda vez, decidi que queria saber mais sobre o parto, porque queria entender melhor as coisas que tinham acontecido da primeira vez e estar mais preparada, nesse processo eu descobri muitas coisas sobre mim mesma, sobre parto em geral, sobre coisas que aconteceram no parto da Joana e tudo isso foi me aproximando de um parto domiciliar. Eu entendi que várias coisas que aconteceram com a Joana foram efeitos colaterais da anestesia e da indução. Entendi que minha vontade de estar em casa, de estar quieta, era algo hormonal e natural para este momento, principalmente quando pensamos em nós como mamíferas, como é o parto das outras mamíferas? Elas se refugiam, cavam buracos, se afastam dos outros, é um movimento natural este de se recolher. Foi um processo de aceitação, de aceitar e entender como tinha sido meu outro parto, de nomear o que eu não tinha gostado, de nomear quem tinha cuidado de mim naquele processo, um olhar integral. Aceitar minha vontade, meu corpo, minha natureza.

E isto tudo entremeado com um dos aspectos que mais me afastava de um parto domiciliar, ter que escolher uma equipe. Pensar nesse processo de conhecer pessoas, avaliar se estaria a vontade com elas, avaliar valores, avaliar preparo técnico me parecia tão difícil. Mas orientados por nossa querida doula Lívia fomos para uma roda de conversa sobre parto domiciliar promovido por uma das equipes da região, e foi sensacional. Foi muito bom não estar ali sozinha para ter que fazer perguntas, foi legal ouvir angustias de outros casais, ter mais elementos para ponderar e pensar.

Depois de entender todas as margens de seguranças necessárias para um parto domiciliar, entender qual o trabalho da equipe, não tínhamos nenhum motivo para não querer um parto domiciliar. Escolhemos a mesma equipe na primeira roda que fomos, e então seguimos os protocolos normais de pré-natal. Nisso tudo, tivemos zero vontade de sair compartilhando que faríamos parto domiciliar, foi um processo longo, envolveu estudo e no tanto de coisas que tínhamos para fazer, não queríamos gastar energia explicando uma escolha tão incomum nos dias de hoje.

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Foram passando as semanas, as lista de itens para o parto domiciliar com tudo check, e eu pensava o que estava por vir, meu maior medo era viver outra indução. Pesquisei em artigos científicos e nos relatos de partos querendo saber qual era a estatística, o que costumava acontecer nos partos de uma mulher que já havia vivido uma indução. E bem, encontrei pouca coisa confiável. Não sabia muito o que esperar, minha sensação era de não conhecer meu corpo e de não me conhecer. Assim eu alternava em momentos de estar aberta a aceitar o que viesse, e em momentos de ter claro o que eu queria.

Uma coisa muito legal da equipe que escolhemos, é que elas faziam o pré-natal coletivo. Então toda semana nos encontrávamos com mulheres que estavam em idade gestacional próxima, e antes da consulta individual havia um momento de partilha sobre expectativas, ansiedades e outros sentimentos. E acabávamos ouvindo relatos dos partos de quem não estava mais indo aos encontros. E eram histórias tão diversas, as vezes até mesmo para cada mulher que de fato havia tido um parto bem diferente do outro, que eu pedia a Deus para viver o que devesse viver com total entrega e paz.

Mas eu tinha lá minhas certezas, uma delas era que o parto seria apenas aos finais de semana, porque durante a semana eu ficava muitas horas sozinha com a Joana e achava que nunca aconteceria assim.

E assim, quando chegou as 40 semanas, eu criei coragem de admitir que eu não queria chegar nas 41. Eu achava que chegaria, mas eu não queria. Eu tinha certeza que chegaria, mas eu não queria. Eu falei pro Felipe. Eu orei. Eu orei mais uma vez. Eu orei várias vezes. Eu falei para os meus pais e isso iniciou uma longa conversa que envolveu choro e pedido de perdão.

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Era segunda-feira, acabou o final de semana, o bebê não tinha nascido ainda, e eu não queria que chegassem as 41 semanas, mas no próximo final de semana já seriam as 41 e eu tinha certeza que iriamos até o próximo final de semana. Mas eu comecei a sentir algumas contrações, fui tomar banho, estava confusa do que estava sentindo, com medo de ser coisa da minha cabeça, e Felipe saiu para caminhar com a Joana. Aproveitei e descansei, pensei que se fosse algo acontecendo era bom descansar. Não era nada. No final da manhã tínhamos uma avaliação com a acupunturista, para conversar sobre indução do parto e talvez já fazer uma sessão. Conversamos, entendemos como funcionava, e decidimos já fazer uma sessão. Foi tão bom, relaxei tanto. Quando acabou buscamos a Joana com a minha mãe e decidimos ir no cinema. Durante o filme eu senti mais algumas ondas/contrações mas nada com ritmo. Voltamos para casa e jantamos pizza e fomos dormir. Dormi super bem.

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Chegou a terça-feira, decidi passar o dia na casa da minha mãe, seria um bom descanso, e minha vó estava lá. Me fez um prato de batatinha frita 🙂  Depois do almoço, quando fui ao banheiro notei que o tampão mucoso estava saindo, avisei apenas o Felipe pois não queria alimentar ansiedade de ninguém, menos ainda a minha e segui a vida normalmente. Mais um noite que dormi bem.

Chegou a quarta-feira, decidi passar a manhã na casa da minha mãe junto com a minha vó. Depois do almoço vim para casa com a Joana, ela tirou uma soneca e eu deitei para dormir um pouco também.

PARTO

Acordei 15:00 da tarde com uma onda/contração, além disso uma louca vontade de comer doce, fiz um brigadeiro com cacau e comi uma parte. Fiquei um tempo sozinha tentando entender o que estava acontecendo, até que 15:30 a Joana acordou também. Expliquei para ela que as vezes eu ia ter que parar para respirar e ajudar o bebê a nascer. Ela entendeu e assim passamos o resto da tarde dando uma arrumada na casa, fazendo atividade de cortar e colar e um lanchinho, no meio disso tudo eu olhava pro relógio para ir tendo uma ideia de quanto em quanto tempo estavam vindo as ondas/contrações. Estavam durando pouco tempo mas vindo até que bem próximas. Avisei a Lívia (doula), mas ainda estava bem incerta se estava acontecendo mesmo, e não queria companhia, preferia estar sozinha e poder prestar atenção no que acontecia comigo.

Quando deu umas 17:00 entrei no banho com a Joana e as ondas/contrações continuaram, naquele momento entendi que já era o parto mesmo acontecendo (normalmente as ondas/contrações de pródromos param durante o banho), logo o Felipe chegou e tirou a Joana e eu fiquei mais um tempo ali, comecei então a fazer a visualização das flores de abrindo a cada onda/contração e a orar pedindo ajuda para Deus para tudo que eu tinha que viver e para me ajudar neste processo de abertura. Quando deu umas 17:40 eu sai do banho, avisei a equipe de enfermeiras obstetras do que estava acontecendo e fui me arrumar, colocar algumas coisas no lugar. Quando deu 18:00 lembro que olhar para o relógio durante a onda/contração me deixou irritada, não queria mais ficar controlando, pedi pro Felipe começar a fazer com o aplicativo. Então acendi a vela de lavanda, o incenso de lavanda, coloquei óleo de lavanda pela casa toda, percebi que precisava me centrar mais. Eu que adoro andar descalça quis ficar o tempo todo de chinelo e de meia. As coisas estavam realmente diferentes.

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Eu precisava parar a cada onda/contração e nisso o Felipe e a Joana me ajudavam com massagem, eu me apoiava na parede, no sofá onde fosse e pensava nas flores de abrindo enquanto fazia a respiração. Tenho uma alegria grande de lembrar destes momentos! Depois a Lívia chegou, ficou um tempo observando meu movimento e a frequência das contrações e me falou que eu estava em trabalho de parto latente. Resolvemos então ajeitar a janta, eu voltei pro banho e Lívia e Joana arrumaram um macarrão com molho a bolognesa que eu repeti umas 3 vezes, lembro de falar que queria comer mais mas que não sabia se era uma boa ideia e da Lívia dizendo que se eu queria iria me fazer bem. Nesse momento do jantar as coisas deram uma desacelerada. Mas em uma onda/contração que me ajoelhei no chão, lembro de ter certeza que a presença da Joana já estava um pouco delicada, pedi para a minha mãe buscar a Joana, e nisso já eram umas 20:00 da noite.

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Depois fui para o quarto descansar um pouco, lembro que fiquei na posição genupeitoral na cama, apoiada com travesseiros porque achei que estava um pouco rápido demais e lembrei que no livro Parto Ativo a Janet indicava estava posição quando sentíssemos que estava muito rápido e quiséssemos descansar. Fiquei ali um bom tempo, aceitando as ondas/contrações, respirando, descansando. No escuro, apenas com a vela de lavanda acesa, o Felipe fazendo massagem e a Lívia tão quieta que por muito tempo nem soube que ela estava no quarto (e meu quarto é bem pequeno). Depois de um tempo assim, achei que eu queria a banheira, mas tinha que fazer tudo, inflar a banheira e encher de água. Enquanto o Felipe a Lívia faziam isso eu voltei para mais um banho.

Durante este banho fiquei quase o tempo todo de quatro, apoiada em um banquinho, me entreguei tudo que pude, lembro de vocalizar em alguns momentos, respirar muito e então começar a sentir coisas muito intensas, percebi que estava na fase de transição (em que você dilata os últimos centímetros), dizem que é o momento de maior intensidade e ali me entreguei tudo que pude, sabia que logo depois tudo se acalmaria. De repente veio uma vontade de fazer força, achei que era muito cedo. Resolvi sair do banho, faltava muito ainda para terminar de arrumar a banheira, lembro que demorei umas 4 ou 5 contrações para chegar até o quarto e pela primeira vez eu sai do banho e não me preocupei de vestir o biquíni como das outras vezes, lembro que pensei que as coisas deviam estar chegando ao fim quando percebi que não me incomodava com minha nudez mais. No meio do caminho até do banho até o quarto concordamos que as parteiras/enfermeiras podiam vir, eram 21:30.

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No quarto mais uma vez voltei para a posição genupeitoral apoiada nos travesseiros, a Lívia trouxe mais algumas almofadas da sala pare eu ficar mais alta e ali me fez muita massagem. Quando deu 22:00 a Fernanda (enfermeira obstetra/parteira) chegou, e um pouco depois que ela chegou, durante uma onda/contração eu senti algo diferente e ouvi um crack, foi ali que começou o expulsivo. Eu quis sair daquela posição que estava, acabei ficando de quatro apoiada na bola de pilates. Então tudo ficou bem mais tranquilo, veio uma paz, uma sensação muito boa. A cada onda/contração a cabeça do bebê ia quase tudo e voltava. Nisso a Fernanda acompanhando o batimento cardíaco e eu seguindo de quatro apoios, eu nunca havia imaginado que ficaria nessa posição. Durou um bom tempo, então em algum momento eu pensei que deveria buscar uma posição mais verticalizada para ajudar o bebê a nascer, nessa busca minha perna tremia muito, odiei a banqueta, não conseguia ficar apoiada no Felipe. Por sugestão da Fernanda deitei na cama de lado e segurei a perna, a posição em si era bem menos confortável que ficar de quatro apoios, porém foi ali que em dois ou três puxos a Lúcia nasceu. Eram 23:00 horas.

(E aqui aproveito para comentar algo que me surpreendeu depois ao lembrar do parto, durante a gestação eu fiquei muito de cocoras, fazia esta posição na pratica de exercícios, usava ela para dar banho na Joana, tentava ficar muito tempo mesmo, sabia que era uma boa posição para parir, mas durante o trabalho de parto em nenhum momento eu quis ficar assim ou me lembrei dessa posição, eu apenas me lembrava desta genupeitoral e da posição de quatro, quando a Lúcia nasceu, junto com a cabeça veio um braço dela, e a Lívia comentou comigo depois que se eu estivesse de cocoras provavelmente teria tido alguma laceração. )

PUERPÉRIO

Que momento maravilhoso. Logo já vimos que era uma menina, o Felipe chorou falando que tinha errado e que a Joana tinha acertado, e assim recebi aquele corpinho quentinho e que parecia tão pequenino no meu colo. Lúcia logo mamou e ficamos ali admirados e muitos felizes. Eu me apoiei melhor na cama. Ela nasceu na minha cama, e eu juro que mesmo decidindo por um parto domiciliar eu não tinha refletido muito sobre o fato de dar a luz na minha própria cama. Foi sim maravilhoso, lembrar disso me aquece tanto o coração. E vale citar que o cheiro do parto é maravilhoso e também muito viciante.

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Fiquei ali por um bom tempo, senti mais algumas contrações para parir a placenta e não saia, precisamos fazer ocitocina de profilaxia e descobrimos que era uma placenta muito grande que não saia porque eu estava muito recostada. Lúcia foi pesada, avaliada, tudo ótimo. Eu fui avaliada, tudo ótimo também, nenhuma laceração.

Eram 2:00 da manhã e a equipe foi embora, ficamos então só nos três. Lúcia dormindo profundamente, logo Felipe dormiu e eu era incapaz de dormir, a energia do parto não é algo que vai embora tão rápido assim.

No dia seguinte logo pela manhã a Joana veio conhecer a Lúcia, que momento lindo lindo de termos vivido. Minha mãe veio, depois meu pai e também a mãe e irmão do Felipe. Estar em casa também foi maravilhoso neste momento, ter este ambiente em que se pode descansar, estar em silêncio, e viver estes encontros e reconhecimentos com calma e como parte extraordinária da vida.

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E aí eu fiquei matutando se devia escrever este relato de parto, porque escrever, a partir de que ponto da história começar a contar etc e tal, e resolvi escrever a partir do ponto que eu mais gostaria de saber, porque foi sabendo de algumas outras histórias que aumentei meu conhecimento e também aceitação com esta ideia, que parece meio louca mesmo a principio, mas que não tem nada de louca, é sim seguro, é possível sem ambulância na porta, e pode ser muito mais tranquilo para diversas mulheres.

Eu não cheguei nesse parto sozinha, muita gente para agradecer!

Aos meus pais pela vida, à minha mãe pelas suas histórias de parto que me deram tanta força. À minha vó pelo prato de batatinhas.

Ao Felipe, por fazer filhos comigo e estar aberto a mergulhar nisso tudo com profundidade.

À Lívia por ter nos guiado neste caminho e nos levado até as Auroras, e às Auroras Fer e Lilian por toda assistência e cuidado!

Às minhas amigues  por tanta escuta, troca, sorrisos, lágrimas e troca real nesse processo de maternidade. À Amanda também 🙂

À Pri Akemi por me fazer pensar sobre minha imagem e semelhança com Deus através da maternidade.

E a Ju, minha vizinha, que me contou como se sentia em pé na feira, carregando sua caçulinha e me ajudou muito mais do que ela pode imaginar.

À Janet Balaskas por ter escrito este lindo livro do Parto Ativo. E a Eliana Rigol do @maternitylivre pelo workshop gratuito de parto (não fiz o pago, mas deve ser sensacional também).

 

 

Um comentário sobre “23:00

  1. Andreia Perinotti disse:

    Uau sensacional prima parabéns pela sua coragem em tomar uma decisão dessas, vc foi muito corajosa claro vc foi atras pesquisou leu estudou ate ter certeza do que queria, e graças a Deus deu tudo certo ela é uma princesa linda e perfeita …..parabens aos papais e a Joana pela linda irmã ☺☺

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